Na hora do parto, gasolina acaba e casal é salvo por motorista de app

Mesmo com passageiro no banco de trás, Pedro parou na rotatória de madrugada para ajudar Ingred e Diogo chegarem na maternidade

| ALANA PORTELA / CAMPO GRANDE NEWS


Diogo Lima segurando a Clarice, que tinha acabado de nascer. (Foto: Arquivo pessoal)

Nem todo herói usa capa, para Ingred Soares e Diogo Lima ele se chama Pedro Recaldes e está dirigindo pelas ruas de Campo Grande, como motorista de aplicativo. Isso porque, na madrugada do dia 19 deste mês, ela entrou em trabalho de parto e eles tiveram que correr para maternidade. Mas, no meio da rotatória do bairro Coronel Antonino acabou a gasolina do carro e, sem crédito e internet para pedir ajuda, entraram em desespero.

“Tivemos que descer e empurrar o veículo para tirar do meio da rotatória, um motociclista ajudou. Estávamos desesperados, era de madrugada. Um carro passou reto, mas cinco minutos depois, outro parou e era o Pedro', lembra Ingred, 19 anos.

Ingred já é mãe do Kauan e esperava pela chegada de Clarice, que estava prevista para o dia 25 de julho, quando completaria 40 semanas de gestação. No entanto, a pequena não quis esperar. “Comecei a sentir contração às 2h da manhã, a dor intensificou e acordei o Diogo. Pegamos as coisas da bebê, entramos no carro e saímos', recorda.

O casal está junto há dois anos. Diogo, 22, é auxiliar de escritório e pai de primeira viagem. Entre uma contração e outra da esposa, ele se preocupava e no meio da rua, começou a pedir por socorro, momento em que Pedro passava, levando um passageiro no banco de trás.

“Era 3h da madrugada, tinha pegado uma corrida no Conjunto Estrela do Sul e estava indo para o Bairro Bela Vista, perto do Centro. Foi quando vi Diogo empurrando o carro na rotatória e ela no volante. Ele pediu ajuda, disse que a esposa ia ter o neném. Falei com o passageiro que levaria o casal e depois terminar a viagem dele', lembra Pedro.

Aos 48 anos, ele recorda de um dos dias mais inusitados no trabalho. “Já fui instrutor de trânsito, vigilante, vendedor e há três anos sou motorista. Pegamos situações inusitadas todos os dias e jamais deixaria eles na rua. Tenho esposa e filhos também'.

Ver o casal no meio da rua fez Pedro até esquecer do horário e ignorar a possibilidade do neném nascer dentro do veículo. “Até imaginei que poderia ter bebê ali dentro, mas a partir do momento que me dispus a ajudar, não pensei mais nada. E se sujasse, eu limparia depois, sem problema'.

“Nós motoristas de aplicativos somos unidos, temos vários grupos e gostamos de ser solidários aos condutores da rua. Se tivesse mais pessoas com atitude de ajudar, a vida seria melhor', destaca o motorista.

Diogo e Ingred entraram no carro e Pedro correu para a maternidade. Chegando lá, o casal tentou pagar a corrida, mas o motorista não aceitou. “Quando a gente faz um favor, não cobramos. Vi a roupinha rosa da bebê e disse, vai conhecer sua filha e que Deus os acompanhe'.

Dali, o casal deu entrada no hospital, enquanto o motorista seguiu viagem para o destino do passageiro que ainda estava no banco de trás. “Pedi desculpas e ele foi muito bacana, disse que jamais acharia ruim a minha atitude, que somos seres humanos e devemos ajudar o próximo. Foi compreensivo'.

Após a finalizar a corrida, Pedro voltou para a casa com consciência tranquila. “Estava feliz e contei a história para minha esposa', relata. Enquanto o herói descansava em casa, Ingred continuou em trabalho de parto, até que Clarice resolveu vir ao mundo, às 7h30.

“Nasceu pesando 2,825 kg e muito saudável. O consideramos nosso herói, pois foi um anjo e teve coragem de ajudar dois estranhos na rua, no meio dessa pandemia. Foi acalmando a gente, tanto ele quanto o passageiro. Temos vontade de apresentá-lo a Clarice', comenta a mamãe.

No dia seguinte, o casal pediu para uma pessoa da família buscar o carro no local onde acabou a gasolina e guardar na garagem da casa onde mora.

Busca - No dia 22 de julho, Diogo fez uma postagem no Facebook na tentativa de encontrar o motorista. A publicação foi vista pela esposa de Pedro, que reconheceu a história e avisou que o condutor do dia era o marido.

Diogo entrou em contato com Pedro pela rede social e o agradeceu novamente, mas desta vez, sem pressa. “Naquele momento, eu já não sabia o que fazer. Foi Deus que enviou ele para ajudar, foi tão gentil e não cobrou nem a corrida. O nascimento da minha primeira filha, jamais vou esquecer', declara o pai.

O motorista e a família ainda não tiveram a oportunidade de se reencontrarem, mas Pedro também gostaria de conhecer a pequena Clarice. “Uma hora quero ver sim', finaliza.

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