Cansado de ver o lixo na rua, José resolveu agir e limpa quarteirão há 4 anos

Ele mora no bairro Jardim Morenão e reserva três dias da semana para varrer, recolher o lixo e carpir o mato na rua Eudes Costa

| CAMPO GRANDE NEWS / ALANA PORTELA


Após limpar e pintar, José Carlos de Oliveira na calçada da rua para descansar (Foto: Henrique Kawaminami)

José Carlos de Oliveira não gosta reclamar. Ele mora na rua Eudes Costa há quatro anos e decidiu ir na “contramão' dos vizinhos. “Quero ser diferente, não reclamar. A rua estava abandonada e suja, tomei iniciativa e comecei a recolher o lixo', conta.

Ele é funcionário público e trabalha armazenando arquivos no Hospital Universitário durante a noite. Mora no Residencial Bota Fogo, localizado no bairro Jardim Morenão e contou sentiu falta da limpeza e resolveu por a mão na massa. “Faço o serviço completo. Varro, dou uma carpida, compro saco para colocar os lixos que deixam pra fora'.

A limpeza tem dias específicos e acontecem as terças, quintas e sábados logo após o sol nascer. “É minha primeira ação do dia', afirmou. Aos 44 anos, José relatou que sempre morou na Capital. Seus pais foram quem o ensinou a manter tudo organizado e limpo, desde a infância. “Eram asseados, principalmente meu pai. Eles me mostraram a importância de ajudar o próximo, a comunidade porque dependemos um do outro'.

A rua é asfaltada, tem 400 metros e fica entre a Avenida Joana D’arc e a Rua Ana Luiza de Souza. Para o trabalho dar certo, criou uma rotina que é ir de porta em porta recolhendo tudo que está no chão. “Às vezes, a pessoa coloca na lixeira, mas passa um gato e rasga. Recolho todos e deixo num canto amontoado para o lixeiro pegar nesses dias', contou.

O segundo passo é pegar a vassoura e varrer cantinho por cantinho, até retirar toda a sujeira da rua e das calçadas. A pá também virou sua companheira e ele não retira das mãos até encerrar o trabalho. “Tenho até uma enxada que uso para carpir os matos que nascem nas calçadas'.

As pessoas passam e o cumprimentam, mas não fazem o mesmo. “É difícil alguém ajudar, não pegam no pesado. Entretanto, não cobro que ajudem', destacou. Recentemente, ele comprou três sacos de cal, fixador e pinceis para pintar o meio-fio das calçadas.

“Investi R$300 porque tive que contratar um ajudante para pintar comigo. Estava muito feio', comentou. Foi um dia de muito esforço e pintura, até concluir o objetivo de entregar aos vizinhos um ambiente melhor. Nem o sol quente intimidou José Carlos, que fez questão de terminar tudo antes de parar. “Como movimenta, os braços ficam doloridos, mas não é o de menos'.

Reconhecimento - A atitude de José Carlos chamou atenção da vizinhança. Ele virou o ícone da rua e os vizinhos dizem reconhecer o esforço. “Todos admiram o trabalho, ele teve uma visão diferente. É um exemplo, nunca teve ninguém que fizesse isso que faz', destacou o funcionário público, Marcelo Ortiz, 53. “Mostra que não se preocupa apenas com a casa onde mora, mas com todos'.

Ele mora no bairro há 20 anos e recordou que a rua Eudes Costa era suja e comparações. “É passar e ver que estão sujas. Jogam papéis, plásticos, garrafas no chão. Aqui é diferente, é realmente um ato de amor ao próximo, aos vizinhos'.

Contudo, chegou um vizinho para fazer a diferença. “Vejo ele cedo, pois passam os catadores de lixo aqui. Não consigo ajudar no serviço, mas quero contribuir comprando o material que precisar. Ver o que está faltando e já o avisei que pode contar comigo', afirmou.

A esteticista, Ângela Mendes mora em frente à casa de José. Ela comentou que falta pessoas com iniciativa igual à de seu vizinho. “Ninguém tem essa atitude maravilhosa, de manter limpo. É muita correria, tenho meu espaço de atendimento aqui e limpo a frente da casa, mas a rua em si não'.

Ela estava sentada na varanda, com o portão da casa aberto tomando um ar fresco e comentou. “É uma visão linda, sentar na frente de casa com tudo limpo é maravilhoso. Isso facilita a nossa vida, evita doenças. Eu ajudo na conservação, para não esparramar o lixo'.

Eusébio Jara é morador recente. Veio de Bonito para Campo Grande e há dois meses alugou uma casa ao lado de José. Tem 77 anos e reconhece a boa ação do vizinho. “É muito bom. Quando me mudei pra cá, sabia que ia encontrar a sujeira, mas ele limpa. Admiro a força de vontade, porém quase não converso com ele porque eu saio pra trabalhar', finalizou.

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